Desvendando a Patagônia

No fim de outubro fiz uma viagem com a Escola Argentina de Sommeliers para explorar os vinhedos e bodegas da Patagônia argentina. Foram muitos encontros e experiências – tivemos a oportunidade de conhecer e conversar com os enólogos, engenheiros agrônomos e proprietários das bodegas Chacra, Noemia, Schroeder, Fin del Mundo, Malma, Infinitus e Humberto Canale, e claro, de degustar muitos vinhos.

Finalmente posso responder a pergunta: “o que os vinhos da Patagônia têm de tão especial”? Mas antes, preciso confessar: eu já conhecia parte da Patagônia, como Ushuaia, Calafate, Bariloche, e sabia que não haveriam bodegas no meio de glaciares ou pinguins caminhando pelas plantas de Pinot Noir; também sabia que a parte mais setentrional da região é praticamente um deserto infinito (a famosa pampa), mas não concebia exatamente como era a zona de viticultura, então imaginem a minha surpresa ao ver tanto verde, tanta vida, que minha cabeça de quase licenciada em arte rapidamente associou com as paisagens bucólicas de John Constable, com seus incontáveis tons de verde, pincelada rápida, a modo de pequenas manchas, que influenciaria posteriormente os franceses de Barbizon e do Impressionismo. Realmente trata-se de um pequeno oásis que o rio permitiu encher de vida, fauna e flora em seu entorno.

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Bodega Noemía

Fen Lane, East Bergholt ?1817 by John Constable 1776-1837

Não lembra uma paisagem de Constable?

Primeiro é importante esclarecer que o que chamamos de Patagônia Argentina é toda a região do rio Colorado para baixo, mais a província de La Pampa. Isso é MUITO chão, é quase a metade do país e não há vinhedos plantados por toda esta enorme área. Em toda a Argentina, a maioria das regiões aptas para a viticultura de qualidade são as que estão perto da cordilheira dos Andes, favorecidos pelo clima e solo que a grande coluna vertebral da América Latina oferece – por isso temos etiquetas de norte a sul, desde a Patagônia até Salta, enorme riqueza de castas e diferentes estilos de vinhos – sempre insisto que há muito mais para conhecer na Argentina além do já consagrado Malbec e a região de Mendoza.

Pois bem, todos os profissionais e teóricos do mundo do vinho coincidem: a Argentina é um território verdadeiramente abençoado; conseguimos alcançar níveis ideais de madurez sem muito esforço, com vinhedos naturalmente saudáveis, pois temos bastante heliofanía (horas de luz), excelente amplitude térmica (dias quentes e noites frias para a planta descansar), abundancia de água natural dos rios e do desgelo dos Andes, clima seco, pluviometria baixa (chove pouco).

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O deserto e o vale vistos do avião

E estas condições ideais para produzir vinhos de alta qualidade justamente se deram na região norte da Patagônia que conforma um vale no meio do deserto, entre as províncias de Rio Negro e Neuquén, em torno dos rios Negro e seus afluentes Neuquén e Limay. Por mais que não seja uma região com tanta altura, por estar em latitude baixa, brinda o clima adequado para a viticultura, além de seus famosos fortíssimos ventos que eliminam possíveis pragas e doenças e fazem com que a pele das uvas engrosse, aportando aromas e cor profunda em seus vinhos ricos em acidez e expressão frutada.

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Horizonte de vinhedos

Por mais que a temperatura chegue até os 35 graus Celsius no verão, o clima é majoritariamente frio, sendo ideal para castas com ciclo de maduração curto, ou seja, que não precisam de tanto tempo para chegarem ao seu ponto ideal de colheita, como é o caso do Pinot Noir e do Merlot, mas como já falei aqui, o Malbec também entra nesta lista pois, lembrem-se, é uma uva plástica, se adapta com excelência a diferentes condições geográficas e dá vinhos diferentes e únicos. Entre as brancas se destacam o Sauvignon Blanc, o Chardonnay e o Semillón.

O mais interessante para absorver disso tudo é que independente do tamanho, estilo, objetivos das bodegas que visitei, todas aparentam priorizar e buscar um produto final que realmente expresse sua origem; isso vai além do conceito de terroir, trata-se de elaborar vinhos autênticos, verdadeiros e fiéis à região, que todos sabem que é única, tem grande peso e sem dúvidas, enorme potencial para vinhos de altíssima qualidade e que surpreendem até o enófilo mais assíduo.

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Nada melhor que degustar os vinhos em seu próprio ambiente

As dicas de vinhos, roteiro e detalhes das bodegas virão em breve!

Achei mais importante introduzir e esclarecer antes os limites e características gerais desta bucólica e pitoresca zona do sul do nosso continente que tanto nos intriga…

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Um comentário sobre “Desvendando a Patagônia

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